Carta sobre aquilo

Gostaria de poder começar essa história por onde, de fato, tudo teve início mas, depois que a vida acontece e nos enche a memória de entulhos e o coração de falsas impressões, a ordem cronológica das coisas acaba perdendo a lógica e se perdendo na torrente de emoções, como em um daqueles filmes adultos que começam pelo clímax. Ou, talvez, isso seja uma desculpa para eu não dizer que perdi a noção das coisas e dos meus batimentos cardíacos e já nem sei ao certo como tudo veio a acontecer.
Pois bem, a coisa toda é fácil de sintetizar: Estou amando. Oh, não me olhe dessa forma! As pessoas estão sujeitas a imprevistos, afinal. Eu também tinha os meus planos. Eu também tinha toda uma vida solitária pela frente, sem nenhum tipo de tendência ao altruísmo. A gente nunca espera que vá acontecer conosco, sabe... mas, se você puder pensar por um segundo... eu, bem, eu não imaginava que a minha reluzente armadura de gelo tivesse falhas.
Como eu reagi? Você não imagina. Eu simplesmente já não podia acompanhar meus próprios pensamentos! E eles vinham em um fluxo incessante de algum lugar insondável dentro de mim, de onde, provavelmente, uma metralhadora de disparates com aparente munição para mais de uma vida teria sido ligada na mira do ateliê bagunçado dos meus balões de pensamento.
Estou amando, meu amigo. Mas leia os balões! Saberá que ainda me pego pensando no que é o amor e se eu tenho mesmo coragem de o deixar entrar. Na dúvida, encostei a porta. Só não consegui trancar aquele sorriso. E isso jamais, tamanha falta faria ao mundo!
Ouve só: o mundo superaria perder o sorriso da Monalisa, a propaganda da Colgate, os dentes. Mas não passaria sem o sorriso dela.
Paixão, sim. Mas o coração enseja mais que frio nas mãos e borboletas no estômago. Quero as borboletas a voar no céu, tanto que voaria junto. Nas nuvens ao beijar minha amada. Beijar minha amada. Voar. E lá se vai o frio nas mãos, pois estou no calor dos seus braços.
O que é o amor? Essa porta que vejo aberta?
O que é o amor? Talvez deixar que ele me explique.
Talvez deixar que ele pergunte
o que sou eu.
E só ela realmente saberá.

Pelo mais

Eu tento apenas conservá-la dentro de mim. Não perdê-la de vista na fácil aparência monótona dos dias.
Conservar a suavidade das pétalas de flor no afago macio dos olhos. De perto. Ainda que pareça tão longe, tornar perto.
É tão fácil acostumar. Olhar sem ver. Querer sem querer: pegar lagartixa pelo rabo, acender a boca do fogão, dar abraço xoxo, essas coisas.
Mas eu quero uma mão para segurar que nunca me solte. De perto. Ainda que precise afastar para desviar dos postes de luz, ser perto. Tão perto que quase já não se sinta os nós dos dedos apertados.
Eu quero um olhar certeiro que saiba falar sem entreolhares. E dizer tudo o que vai ficar. E que nunca passará.
Tão perto que não precise-se fazer esforço para não ser distante. E para não ser mais um dia-apenas um dia-menos um dia-ufa.
Quero hábitos de nascer como o sol, encharcar como a chuva, dançar como o vento. Quente, intenso e suave. Ter essas virtudes que Ele espelhou na natureza e no universo e provocam a brecha vazia que aspira ao Amor em meu coração, que também quer refletir a beleza da vida - sem perdê-la de vista na fácil aparência monótona dos dias.
Pois é realmente mais difícil ver o extraordinário, mas só porque procuramos mais no extra que no ordinário.
E não sou mais ignorante para dizer que não entendo. Nem desonesta o bastante para fingir.
Quero menos do mundo e mais de mim. Pelo mais, quero querer.

Fiat Lux

Escrito em 10 de abril de 2015

Eu quis tirar uma foto das estrelas.

Elas eram um amontoado bonito. Pontinhos de luz infindáveis. As reticências do universo.

Pequenas, desafiavam o breu da noite com mil sorrisos brilhantes de comerciais extraterrestres da Colgate, seguindo-nos, companheiras e estáticas, por 63 km a fio.

Atrás da cortina esvoaçante, dos suspiros de cansaço abafados, do vento fustigante e barulhento fazendo pressão no ouvido esquerdo do motorista, acima da inconstante paisagem de vegetação arbórea que nos dava, a cada metro, acelerado "oi" e "adeus" mal-acabado, lá estavam as gentis estrelas. Mais altas, mais belas, mais misteriosas na sua realeza, mas mais humildes que as luzes artificiais das cidades dos homens.

Pensei em quantas delas já teriam morrido. Luzes que não se apagam.

Eu queria ser feliz como uma estrela. Ser poesia como uma estrela. Fazer sonhar. Saber o caminho da Vida tal qual a Estrela do Oriente, sem jamais perder-me ou levar à perdição.

Mas, no enquadramento da câmera fotográfica, tudo era escuro no céu.

Captei, então, o visor da quilometragem, com sua contagem obsessiva e agressiva luz neon e incandescente e que me fez lembrar, de um jeito meio estranho, que elas ainda estavam lá. Olhei com os meus próprios olhos. Guardei-as no coração.

E agradeci a Deus por ainda poder apreciá-las pela manhã, quando o Sol, finalmente, voltará para o lado certo da Terra e o mundo terá a cor de outra inspiração poética. Sentindo. Sabendo.
Não há escuridão desde que fez-se a luz.

Esse dia

Já não sei o que acontece. Vivo agora a necessitar de ti. Estamos tão longe e isso me deixa infeliz.
Será que deveria ser assim?
Não faz uma semana. Não faz sequer um dia. Mas sei que fará. E isso, desde já, me traz uma angustia sem explicação.
Eu preciso ter a certeza de você 24h por dia, de que tudo é real, de que você está mesmo ali (na minha vida), mesmo pintando o muro na chuva, mesmo jogando futebol cheio de areia e suor, mesmo dormindo em outro cômodo e deixando seu cheirinho em um lençol inanimado que não te merece. Eu preciso. Acordar e saber: você está. Você é. E que eu posso segurar suas mãos para me sentir em segurança. Porque eu estou em suas mãos, mas não estou segura ainda. Tudo pode ser passageiro por agora, apesar da constância desses últimos tempos.
Eu quero mais: quero realizar nossas lembranças inventadas. Quero lembrar desse nosso dia: os resquícios da maresia em nossos corpos, sentados aconchegados na rede azul-marinho do alpendre, quando sonhamos vermos chegar os nossos filhos e netos numa casinha nossa de praia e te dizer: Lembra daquele dia? Nós fizemos isso, meu amor. Você acredita? E você não precisaria pagar para ver. Eu não desataria a prometer ainda que estivesse a desconfiar, no meu íntimo, aquele tantinho só.
Porque o meu coração, embora comumente tolo, sabe que "há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrê-lo".
Mas isso não muda o fato de que nós o conhecemos, amor. E que esse mesmo coração deleita-se com a ideia, entusiasmado de sonhos.
Segure minha mão.
Por favor, sigamos em frente.
E, se precisarmos parar, que seja para apreciar a paisagem. Da vida em nossos olhos.

Passatempo

Quando dei-me conta de como o futuro era distante, eu desisti de esperar por ele. Olhei para o que eu tinha, como olho agora o que tenho, e permiti-me fazer minhas escolhas de cada dia um dia após o outro, sem o fardo pesado do enésimo "hoje" que eu não vivia (e nem saberia viver - e se iria). Ao futuro, o seu tempo. Aqui e agora, ele estaria no seu devido lugar, assumindo a justa forma da sua não-existência, sem o tormento de seu fantasma para enevoar o meu instante eternamente único e efêmero de toda a vida.
Abençoados monges medievais! Culpados pelos "Memento Mori" e "Carpe Diem" de uma existência prematura como a minha. Agora eu tenho 2000 anos. Não quero viver tudo o que há para viver, Lulu. Não quando eu posso pular alguns erros.
Sim, era um plano perfeito.

Mas olho agora o que tenho e já não sei nem do presente.

E o que está em minhas mãos? Nada. É. Tão. Simples.
Tudo. Então. Complicado! E eis, senhores, a sentença que ecoa o meu viver desde o "cresça e apareça" da minha história.
Esquecer o futuro tirou-me um peso das costas. Mas é que, às vezes, me perco do sentido de viver pelo agora. Especialmente num momento de tomar decisões maiores que o instante. Eu, que não consigo escolher o sabor do sorvete direito e não tenho cor preferida nem de jujuba. Decisões maiores que eu. Não gostaria ter de olhar para o meu sorvete de bombom italiano e pensar "deveria ter escolhido floresta negra" de novo.

E, no desenrolar desses pensamentos, voltei-me para o futuro, que a Deus pertence. E me veio a luz quando pensei: É muito provável que o presente também.
Respirei, aliviada, e acrescentei um adendo ao plano: DEIXÁ-LO pertencer a Ele.

As pessoas não estavam sendo dramáticas quando falaram que ia ser difícil. Nem tão clichês quando acrescentaram: "Mas não é impossível".
Agora que parece, você sabe: Não é impossível. É só que nada é tão simples quando o passatempo preferido da nossa espécie é complicar tudo.

Olho agora o que tenho e permito-me fazer minhas escolhas de cada dia um dia após o outro.

Que a fé em meu coração me guie. Apesar dos fardos pesados.
E talvez não seja doce, como muitos esperam. Mas sei que será leve.

Há muito tempo eu não escrevo

Escrito originalmente em 06 de outubro de 2014

Há muito tempo eu não escrevo. Por que tudo está tão morno mesmo aqui dentro do vulcão? Por onde anda minha sensibilidade, a ânsia de expressar a amarga doçura de um momento qualquer da vida... o ser ou não ser que tanto já me sacudiu? Eis a questão.
Sinto que perdi a manha. Se é que eu já a tenha tido. Talvez eu tenha me perdido... das palavras que embaralhei um dia. Mas ainda pareço sentir a poesia da manhã. Qual manha! Quando os raios de sol me tocam a pele, sinto-me grata por viver. Antes de começar a pensar na radiação ultravioleta e se não seria uma boa hora de passar creme protetor.
É que o medo não vem primeiro... a razão não vem primeiro... a letra “a” não vem primeiro do “Ah!” que me vem sem o comando dos lábios, ultrapassando a possibilidade sufocante do mais ingênuo pensamento.
Eu não me cansei de suspirar pela vida, eu não posso dizer que já vi de tudo ainda. Sequer verei antes da catarata. E viverei sem sequer.
Mas não tendo algo suficiente que falar, expresso-me calando a voz. Aprecio apenas, sem pedir explicações ao Criador ou tentar colocar o “Céu na cabeça”*, porque tudo é sempre belo e inebriante e eu não mudaria nada na perfeição milimétrica do universo.
Há muito tempo eu não escrevo. Mas meu peito está cheio de ar, com a mesma forma abstrata de gás que eu não vejo, mas balança os meus cabelos. E sigo respirando a forma divertida de seus arabescos azuis, como os artistas de aquarelas costumam pintar, porque eles só querem colocar a cabeça no Céu e sorrir. E eu faço assim: Por que não?

* Referência a "Ortodoxia", de G.K. Chesterton <3
* Fiquei triste quando percebi que há mais de um ano eu não aparecia por aqui. 2014 me deixou sem espaço, mas fui eu quem permitiu isso. Em 2015, isso mudará. Não vou deixar mais acontecer.

Feliz Natal a todos!

O verbo


Eu descobri que sou um verbo. Sou porque sou e tornei-me na medida em que tentava ser. Agora, sendo, sou ainda mais. É simples assim: se você for sincero consigo mesmo, será. Fará sentido. Essa coisa de ser... não é tão difícil quanto parece. É gramatical.
Em algum momento do ensino fundamental as pessoas aprendem que verbo indica ação, estado ou fenômeno meteorológico. Ora, ser é verbo. Logo, o ato de ser deveria significar uma dessas três coisas. E arrisco dizer que, sendo algo tão fundamental, bem poderia significar as três. Então, por que insistimos em ser sem que sejamos? Por que não, agir e estar, da forma que se quer ser? Por que não, chover, nevar, orvalhar? Arco-íris de si. Frente fria de pensamentos. Um ciclone extratropical de conflitos internos. A paz, Coroa Lunar. Trovejar. El Niño. La Niña. El Niño, La Niña. El-niño-la-niña. Los Niños juntinhos. Quando dois são um só.
O que somos, nós que fazemos. E mais do que isso: O que somos, nós que somos. Se não se quer ser, já se está sendo. Para ser basta que se exista. Não é como uma opção. A opção é ser-o-que-se-é.  
Eu descobri que sou um verbo. E escolhi não apenas ser. Eu escolhi ser amor (que se é).
Eu escolhi ser: Amar.

Sobre pesca, recortes e louça suja

Escrito em 01 de outubro de 2013, com inspiração genuína em rascunhos de caderno

Às vezes, quando eu paro de pensar nos problemas da vida, na minha vida e nos meus próprios problemas, consigo ver o mundo. O mundo sem as expectativas do mundo todo, e do mundo que me diz respeito: as que projetaram para mim antes mesmo de eu nascer, as que adotei ao longo do caminho para correspondê-las e as que inventei, por conta própria, ao sofrer as decepções de viver o que não tinha roteiro.  Nessas horas, sinto como se não pertencesse a nada – sequer a mim mesma. Mas, enquanto não sou capaz de captar a essência última do que sou, sinto-me apta a vestir a indumentária habitual de espectadora da vida. Pois o inefável, até que possa ser claramente definido, não tem de tomar partido das coisas. De fato, nem ingresso paguei para estar aqui. E ali, naquele momento, se fosse possível ser, à parte de tudo isso, eu fui.
Eu queria ser capaz de dizer tudo o que inunda a minha mente nesses instantes... muito provavelmente, embora só em sentido alegórico, as ondas do mar do abismo – aonde lancei linha de pesca e diante de onde finquei os pés, na esperança de sondar a poesia do universo (ainda que fosse dia e não se visse estrelas).
Quantos olhares de interesse são disfarçados num milésimo de segundo? Quantos sorrisos sem para quê são dados só para que se dê um “quê” de felicidade à tristeza? O que há detrás de uma lágrima? O que há detrás das cicatrizes marcadas na pele?... Das cicatrizes que não deixam marca? De uma vida que se aproxima da morte a cada segundo? De uma vida que nem nasceu e já morreu? Será... que sentir amor dói mais do que não sentir?... O que eles sentem?
Quando eu vejo o mundo, vejo a mim. E, do lado de fora, pergunto-me onde estou dentro.  Se sou a namorada apaixonada que abriu mão dos seus sonhos para sonhar à dois, se sou a sonhadora que se refugia em sua própria fantasia, se sou o refúgio de outro sonhador... se sou quem escreve sentada em um banco distante com vista panorâmica da vida... se sou quem ignora a vista, e lê a história. De qualquer forma, a tarefa parece um pouco como tentar encaixar um recorte numa colagem de papel. Porém, e não é por falta de goma, algo no final acaba não dando certo.
Talvez minha dose de humanidade seja grande demais para caber em um só parágrafo, e eu tenha mais do mundo do que me parece, às vezes. Talvez todos tenham querido ser espectadores, em algum momento, mas assistir só é verdadeiramente aprazível quando se veem ações concretas. Talvez a gente não precise entender tudo, quando se vive e se é. E a poesia do universo talvez seja peixe grande demais para caber em barco tão finito.

No fim das contas, paguei meu ingresso subindo no palco. Da mesma forma que, no restaurante da esquina, quando não se tem dinheiro, paga-se lavando os pratos.

Coisas do meu coração

Eu adoro quando você diz
"Menina, faça isso não"
Porque sabe sou só aprendiz
Nessas coisas do meu coração

Eu adoro quando você vem
E começa a frase com meu bem
Porque sabe não vou resistir
Se você começar a sorrir

E adoro te ter bem pertinho
Pra te abastecer do meu carinho
Pra tentar convencer a saudade
Que amor às vezes é deixar ir

Se você sempre volta
E eu sempre estou aqui
Se você "faz isso não"
E eu faço isso sim
Se você diz "meu bem"
E eu começo também
A sorrir

Um soneto

"Oh, flor do céu! Oh, flor cândida e pura!"
Como eu negaria ver tua beleza
E, pela razão, chegar à loucura
Se honro o pão que Deus me põe na mesa?

Oh, flor do céu! Oh, flor bela e amarga!
Tu que me revelas a luz divina
Tanto guia-me, no estreito, a portas largas
Faço a cruz meu petrecho de esgrima

Mas fugisse à sina de te adotar
Recuando um pouco mais a cada dia
Sem risco de sangrar por tua navalha

Seria como um bote à deriva em alto mar
Brindando o orgulho vão que me diria:
"Ganha-se a vida, perde-se a batalha!"

Obs.: Aceitei o desafio do capítulo LV de Dom Casmurro e fiz isso daí. O que um trabalho de literatura não nos faz fazer, não é?
À propósito, Machado para sempre! <3

O Amor nos inventou

"A chave do mistério
Aponta para dentro"
Mas tudo é mistério
No mais íntimo de ti
E eu, cá de fora
Não posso explicar
O amor que deverias sentir


Não há nada mais belo                                                                           
Reconhecerás este elo
Assim que o não vir chegar
Se a loucura é perder a razão
O que se perde é o coração:
Não és insano por amar


Veja só, é um novo dia
Deixa essa covardia
De viver só por instinto
Ainda procuro em seus olhos
A alma que implora a paz
Eternizada em guerra nesse labirinto.


Do que é que a gente é inventor?
O que é que a gente criou
Que depois não destruiu?
O Amor nos inventou
E, apesar de tanta dor
Mesmo hoje, já sorriu


Atualização: 2º lugar no 1º Concurso de Poesia Falada Estudantil (Estância/SE).

Uma tarde com você

Quero uma tarde com você, para poder viver de perto o meu sonho, e não apenas sonhá-lo há quilômetros de distância.
Quero uma tarde com você para contar como passei os dias e os sinais do tempo e os que estão espalhados na sua pele. Até perder as contas, num segundo de distração. Uma tarde para ouvir de novo de onde vieram tantas cicatrizes, pois cada uma delas mereceria um livro biográfico... Eu compraria.
Quero uma tarde com você para lembrar que aquele "negócio estranho" se chama saudade, e que a saudade tem motivo e a espera, graças a Deus!, recompensa. Para provar que não se deixar cativar para não sofrer é um péssimo plano.
Quero uma tarde com você para explorar cada mundo de um novo abraço com meu melhor espírito aventureiro, para esquecer toda desculpa que inventei para amenizar a culpa de repetir os mesmos erros e continuar a viver como se já não me tivessem mostrado como fazê-lo: você é uma oportunidade de amar.
Quero uma tarde com você: no inverno, para afastar o frio; nos dias quentes, para acomodarmos os dedões dos pés na areia macia da praia... porque as ondas do mar são como uma mãe que lava os pés de seus filhos travessos antes que eles entrem em casa. E nós não somos filhos teimosos.
Quero uma tarde com você, para contar as piadas sem graça que ensaiei e acabar por te fazer rir sem querer.
Uma tarde com mil pores-do-sol, todos por ocasião de um novo dia.

Olha minha 100ª publicação aí, gente! :P

Última folha do caderno

Você me aquece da ponta dos pés
Até as artérias do meu coração
Nós parecemos loucos, de outro tudo
Tal a extravagância neon
Da paixão

O seu abraço é tão carinhoso
Quem me o dera fosse mais viscoso:
Já não teria que arranjar desculpas
Pr'essa vontade de não te soltar

Vai bem, vou desenhando nosso céu tão terno
Na última folha do caderno
'Inda que eu não saiba desenhar

E, bem, naquela tela de computador,
Jazem as notas sobre o nosso amor
E as digitais do seu, meu polegar

Revejo as fotos:
Não ouviram o "xis"
Um beijo e sempre
Tudo o mais condiz:
Ainda o sinto à ponta do nariz

E visto que à primeira vista
Não o chamei de amor
Seja-o agora aonde você for
Mesmo onde a vista não
Chegar

Corri para mim

Depois de tantas reviravoltas, não resisti: este é o lugar. O lugar de quê exatamente? Não sei. Às vezes um desabafo, às vezes algo que simplesmente não merece ficar guardado - já que o que fica guardado não é muito diferente de uma caixa esquecida no meio do porão: não serve para nada e ainda acumula poeira. Sei mesmo que é sempre um escrever para encontrar-se.
Como se sentir preenchido? Esvazie-se. Funciona comigo. Não que eu esteja cansado de mim - só quero dar alguns passos além de meus próprios pés. Quem sabe eu possa voar se esquecer, por um ou dois segundos, essas limitações que eu mesmo me imponho... Se até xícara tem asa, a catacrese também pode me dar uma "mãozinha". E aí a gente vê se, depois que passar a hora, eu ainda me perguntarei: Por que foi tão difícil falar isso antes. E se faltará, de novo, interrogação para tamanha verdade.
Ter te deixado ir sem te chamar de volta foi como aceitar que você fosse... como abrir mão do tempo que te roubo, com justiça, nos fins de semana que chamo de nossos. Mas parei no corredor, sem saber aonde ir e se não teria sido coisa de momento ou para quem correr pr'o abraço: então, corri para mim. E acabei aqui. Este é o lugar onde sou.
E se a voz sair, eu digo em voz alta.

Um pouco

Em todo lugar
Tem um pouco de você:
No banco da praça
Na porta de casa
No meu coração
Onde não posso ver

Talvez quando isso passe
Eu já nem queira mais falar
O grito da saudade
Vem para me lembrar
O sussurro que chamam de amor

Eu vejo a vida passando
O mundo, um vulto na janela
E tudo o que eu quero comigo
Ficando mil metros atrás

Eu preciso de um abraço
Não esse, que não é abrigo
Eu preciso de você
Ou retrocedo uma vez mais

Em todo lugar
Tem um pouco de nós dois
Nas palavras não ditas
Que ficaram pra depois
Na chuva que acabou
Sem estrear sequer um beijo
Na luz que deformou
A silhueta de um desejo

O que há de ti em mim
É substrato
E apesar de qualquer fato
Em todo lugar é o que vejo

Algo a mais

Eu nasci com algo dentro de mim. Algo que muitas vezes não sei bem o que é, apesar de arder em meu peito, mas que, na maioria das outras, quando a necessidade de um significado atormenta-me a mente, é fácil sintetizar como uma vontade incessante de buscar algo a mais. É importante frisar minhas palavras para que, porventura, eu não venha a ser mal entendida mais tarde (afinal, mal entendidos são uma grande infelicidade): estar em busca de algo a mais não é desprezar o que já tenho e o que já sou, é, pelo contrário, tê-los em tão alta consideração que seria quase como um desmérito estar satisfeita com tão pouco, com tudo o que ainda há para ser e ter. Como já falei, eu não busco algo mais, busco quase o oposto disso: algo a mais. Não para estar um passo à frente de mim mesma, mas para dar um passo adiante - e neste caso, eu estaria assumindo, ainda, tudo o que vivi.
Eu nasci com a pressa de percorrer o mundo só para chegar em casa no final. E então eu tiraria os sapatos e massagearia os pés dormentes, enquanto a sensação valiosa de estar onde sempre quis tomaria, nos meus lábios, a forma irreparável de um sorriso. Faz algum tempo desde que tomei a decisão de ir em frente com isso, porque eu me conheço o suficiente para saber que não vou descansar até chegar ao ponto em que terei de admitir não podê-lo ultrapassar, porque eu sei que enquanto houver caminho a meu alcance, sempre caberá algo a mais na bagagem. E porque eu jamais recusei algo que viesse a me somar. A menos que fosse comida.
Afinal, por mais que procure-se-a, e isso é absolutamente necessário, já sinto admitir em meu coração: satisfação, neste mundo, é ter a barriga cheia - e um lembrete de paciência colado no umbigo.

Do que é insondável

Levantou-se para escrever o que tanto lhe afligia a alma mas, ao sentar a ponta da caneta na folha em branco e inclinar corpo e mente na direção das palavras que viriam a seguir, descobriu-se inútil em desvendar o que já sentia de cor - no sentido mais literal da expressão. Na verdade, ela já havia conseguido lidar muito bem com o fato de não poder entender o amor e o universo e a síntese de proteínas mas tornar-se a si mesma um ponto de interrogação era muito mais do que podia suportar. Não compreender o que sentia parecia-lhe o mesmo que não saber quem era. A impressão que se tinha era de estar caindo no abismo de sua própria escuridão, da mesma maneira que Alice, tão imprevisivelmente, caíra numa toca de coelho. Mas havia um paradoxo misterioso naquela queda interminável: ao passo que penetrava mais profundamente, sentia-se cada vez mais longe do que queria se tornar, sob o peso esmagador dos medos e inseguranças, e também cada vez mais perto da liberdade que era fincar os pés no chão, porque apesar do tombo que a esperava e embora pudesse permanecer no mesmo lugar – e isso, em si, já é uma escolha -, poder-se-ia também ir para onde for, eventualmente com as próprias pernas. Tentava ela, principalmente sem sucesso, parecer indiferente a tudo isso, sem saber ao certo se a culpa era sua ou do mundo, sem saber a quem devia as respostas que andou procurando e de onde surgiram tantas cobranças sem razão aparente, mas sabendo que, fosse quem fosse, tratava-se de uma retaliação.
De qualquer forma, agradou-lhe lembrar que todas as vezes em que sonhou estar caindo, acordou na cama.


* Oi, gente! Nunca é tarde para desejar um feliz ano novo, não é?... então, FELIZ ano novo! Continuem comigo.

Debaixo do chuveiro

Originalmente escrito em 26 de julho de 2009

Debaixo do chuveiro, ela canta
No ritmo da música, os passos de dança
Um verdadeiro espetáculo:
Holofotes, aplausos e gritaria
Do lado de cá, os pais também gritam
Mas só que de agonia
A visita pensa sequer pensar
Em voltar aqui
E, debaixo do chuveiro,
A menina sorri
Até que o xampu escorrega
Fazendo arder o brilho no olhar
E a menina, depressa demais,
Os olhos se põe a lavar
Abundantemente, assim como o rótulo diz
O show acabou? Como assim?
Voltem amanhã! Deixem de euforia!
Pois essa menina tem, afinal
Para ser feliz, todo dia.

Areias da madrugada

Originalmente escrito em 17 de outubro de 2010


As ondas banhavam o meu corpo, no vai e vem improvável do raso do mar, siris dançantes brincavam ao meu redor. Meu cheiro de peixe fresco em redes de pescador impregnava o ar puro do dia.
A aurora já vinha surgindo e eu sabia que agora faltava pouco, ele logo estaria lá, brilhando de novo. Ainda que o mundo continue desmoronando.
Dessa vez, eu estava otimista, nunca havia tentado numa segunda-feira, afinal. Dessa vez, tinha que dar tempo. Esperei, ansiosa por um milagre.
Os fios de meu cabelo pingavam água salgada, as gotas que atingiam meu rosto fazendo o mesmo percurso das lágrimas. Chorar deve ser assim, pensei.
Dei uma olhada furtiva para trás, quando os murmúrios ao longe me fizeram estreitar os olhos. Já ficando perto.
Havia um segredo a ser guardado. Mergulhei de volta para casa.
Minha cauda verde-esmeralda emergiu segundos depois, deixando uma criança, que viera correndo na frente dos pais, de olhos arregalados e completamente boquiaberta, com os pézinhos fincados na areia macia.
Seu maior sonho, diria ela mais tarde.
Mas sereias não existem, retrucariam.

Protótipo


Certo dia, conheci um lugar novo, onde muitas pessoas se faziam presentes. Ao observá-las por tempo indefinido, pude perceber que estavam essas pessoas claramente divididas em dois grupos. O primeiro grupo dizia respeito àquelas que pareciam encontrar velhos amigos - pois abraçavam-se uns aos outros com força suficiente para esmagar qualquer saudade - e àquelas que caminhavam com passos determinados em direção ao que sabiam bem, como se pudessem seguir em frente mesmo de olhos fechados, e ainda às pessoas que pareciam ter chegado aonde queriam, essas, especialmente, perambulavam de um lado a outro, parecendo ocupadas demais no momento, entretanto carregavam consigo um ar de tranquilidade, cujos vincos na testa, por muitos que fossem, não faziam alusão à preocupações triviais. No segundo grupo, estavam aquelas que pareciam tão deslocadas quanto eu. Os olhares dispensados a nós nunca ultrapassavam dois segundos, acredito que, se realmente nos notaram, então, preferiram não se importar. Naquela ocasião, eu não estava sozinha, mas experimente adentrar uma floresta em que você nunca esteve acompanhado de alguém com mesmíssimo grau de experiência e verá que a companhia não será consolo suficiente.
As respostas que nos deram, na maioria das vezes, nos fez mais confusos que antes e as poucas que serviram de algo somente esclarecem dúvidas imediatas - nada que pudesse nos nortear. Ficamos esperando uma recepção que nunca veio, ao invés disso nos deram um mapa minúsculo e um pirulito que adoçou a vida enquanto durou a primeira e única mordida que o transformara num mero palito. As coisas essenciais, fomos, por conta própria, aprendendo - com a mesma voracidade com que feras famintas devoram sua presa -, até adquirirmos a qualidade de predadores. As pessoas eu não as culpo de terem, por bem ou mal, conseguido se encontrar e esquecido por completo a sensação de estar em busca, de si mesmo, de uma direção a que seguir, de respostas que alcancem o cerne do questionamento... 
Devo confessar que até hoje não sei o que faço aqui. Tudo bem, eu já consigo discernir cada banheiro e corredor e agora sei o meu horário de aulas de cor. Mas ainda ontem encontramos uma saleta com teto rebaixado no segundo andar da sala de troféus que jamais, em todo esse tempo, imaginamos existir. Em suma, o fim do ano letivo não fará com que eu deixe de me sentir uma eterna caloura. E, cada vez, eu tenho mais certeza de que a escola é um protótipo da vida.