Algo a mais

Eu nasci com algo dentro de mim. Algo que muitas vezes não sei bem o que é, apesar de arder em meu peito, mas que, na maioria das outras, quando a necessidade de um significado atormenta-me a mente, é fácil sintetizar como uma vontade incessante de buscar algo a mais. É importante frisar minhas palavras para que, porventura, eu não venha a ser mal entendida mais tarde (afinal, mal entendidos são uma grande infelicidade): estar em busca de algo a mais não é desprezar o que já tenho e o que já sou, é, pelo contrário, tê-los em tão alta consideração que seria quase como um desmérito estar satisfeita com tão pouco, com tudo o que ainda há para ser e ter. Como já falei, eu não busco algo mais, busco quase o oposto disso: algo a mais. Não para estar um passo à frente de mim mesma, mas para dar um passo adiante - e neste caso, eu estaria assumindo, ainda, tudo o que vivi.
Eu nasci com a pressa de percorrer o mundo só para chegar em casa no final. E então eu tiraria os sapatos e massagearia os pés dormentes, enquanto a sensação valiosa de estar onde sempre quis tomaria, nos meus lábios, a forma irreparável de um sorriso. Faz algum tempo desde que tomei a decisão de ir em frente com isso, porque eu me conheço o suficiente para saber que não vou descansar até chegar ao ponto em que terei de admitir não podê-lo ultrapassar, porque eu sei que enquanto houver caminho a meu alcance, sempre caberá algo a mais na bagagem. E porque eu jamais recusei algo que viesse a me somar. A menos que fosse comida.
Afinal, por mais que procure-se-a, e isso é absolutamente necessário, já sinto admitir em meu coração: satisfação, neste mundo, é ter a barriga cheia - e um lembrete de paciência colado no umbigo.

Do que é insondável

Levantou-se para escrever o que tanto lhe afligia a alma mas, ao sentar a ponta da caneta na folha em branco e inclinar corpo e mente na direção das palavras que viriam a seguir, descobriu-se inútil em desvendar o que já sentia de cor - no sentido mais literal da expressão. Na verdade, ela já havia conseguido lidar muito bem com o fato de não poder entender o amor e o universo e a síntese de proteínas mas tornar-se a si mesma um ponto de interrogação era muito mais do que podia suportar. Não compreender o que sentia parecia-lhe o mesmo que não saber quem era. A impressão que se tinha era de estar caindo no abismo de sua própria escuridão, da mesma maneira que Alice, tão imprevisivelmente, caíra numa toca de coelho. Mas havia um paradoxo misterioso naquela queda interminável: ao passo que penetrava mais profundamente, sentia-se cada vez mais longe do que queria se tornar, sob o peso esmagador dos medos e inseguranças, e também cada vez mais perto da liberdade que era fincar os pés no chão, porque apesar do tombo que a esperava e embora pudesse permanecer no mesmo lugar – e isso, em si, já é uma escolha -, poder-se-ia também ir para onde for, eventualmente com as próprias pernas. Tentava ela, principalmente sem sucesso, parecer indiferente a tudo isso, sem saber ao certo se a culpa era sua ou do mundo, sem saber a quem devia as respostas que andou procurando e de onde surgiram tantas cobranças sem razão aparente, mas sabendo que, fosse quem fosse, tratava-se de uma retaliação.
De qualquer forma, agradou-lhe lembrar que todas as vezes em que sonhou estar caindo, acordou na cama.


* Oi, gente! Nunca é tarde para desejar um feliz ano novo, não é?... então, FELIZ ano novo! Continuem comigo.

Debaixo do chuveiro

Originalmente escrito em 26 de julho de 2009

Debaixo do chuveiro, ela canta
No ritmo da música, os passos de dança
Um verdadeiro espetáculo:
Holofotes, aplausos e gritaria
Do lado de cá, os pais também gritam
Mas só que de agonia
A visita pensa sequer pensar
Em voltar aqui
E, debaixo do chuveiro,
A menina sorri
Até que o xampu escorrega
Fazendo arder o brilho no olhar
E a menina, depressa demais,
Os olhos se põe a lavar
Abundantemente, assim como o rótulo diz
O show acabou? Como assim?
Voltem amanhã! Deixem de euforia!
Pois essa menina tem, afinal
Para ser feliz, todo dia.