Passatempo

Quando dei-me conta de como o futuro era distante, eu desisti de esperar por ele. Olhei para o que eu tinha, como olho agora o que tenho, e permiti-me fazer minhas escolhas de cada dia um dia após o outro, sem o fardo pesado do enésimo "hoje" que eu não vivia (e nem saberia viver - e se iria). Ao futuro, o seu tempo. Aqui e agora, ele estaria no seu devido lugar, assumindo a justa forma da sua não-existência, sem o tormento de seu fantasma para enevoar o meu instante eternamente único e efêmero de toda a vida.
Abençoados monges medievais! Culpados pelos "Memento Mori" e "Carpe Diem" de uma existência prematura como a minha. Agora eu tenho 2000 anos. Não quero viver tudo o que há para viver, Lulu. Não quando eu posso pular alguns erros.
Sim, era um plano perfeito.

Mas olho agora o que tenho e já não sei nem do presente.

E o que está em minhas mãos? Nada. É. Tão. Simples.
Tudo. Então. Complicado! E eis, senhores, a sentença que ecoa o meu viver desde o "cresça e apareça" da minha história.
Esquecer o futuro tirou-me um peso das costas. Mas é que, às vezes, me perco do sentido de viver pelo agora. Especialmente num momento de tomar decisões maiores que o instante. Eu, que não consigo escolher o sabor do sorvete direito e não tenho cor preferida nem de jujuba. Decisões maiores que eu. Não gostaria ter de olhar para o meu sorvete de bombom italiano e pensar "deveria ter escolhido floresta negra" de novo.

E, no desenrolar desses pensamentos, voltei-me para o futuro, que a Deus pertence. E me veio a luz quando pensei: É muito provável que o presente também.
Respirei, aliviada, e acrescentei um adendo ao plano: DEIXÁ-LO pertencer a Ele.

As pessoas não estavam sendo dramáticas quando falaram que ia ser difícil. Nem tão clichês quando acrescentaram: "Mas não é impossível".
Agora que parece, você sabe: Não é impossível. É só que nada é tão simples quando o passatempo preferido da nossa espécie é complicar tudo.

Olho agora o que tenho e permito-me fazer minhas escolhas de cada dia um dia após o outro.

Que a fé em meu coração me guie. Apesar dos fardos pesados.
E talvez não seja doce, como muitos esperam. Mas sei que será leve.

Há muito tempo eu não escrevo

Escrito originalmente em 06 de outubro de 2014

Há muito tempo eu não escrevo. Por que tudo está tão morno mesmo aqui dentro do vulcão? Por onde anda minha sensibilidade, a ânsia de expressar a amarga doçura de um momento qualquer da vida... o ser ou não ser que tanto já me sacudiu? Eis a questão.
Sinto que perdi a manha. Se é que eu já a tenha tido. Talvez eu tenha me perdido... das palavras que embaralhei um dia. Mas ainda pareço sentir a poesia da manhã. Qual manha! Quando os raios de sol me tocam a pele, sinto-me grata por viver. Antes de começar a pensar na radiação ultravioleta e se não seria uma boa hora de passar creme protetor.
É que o medo não vem primeiro... a razão não vem primeiro... a letra “a” não vem primeiro do “Ah!” que me vem sem o comando dos lábios, ultrapassando a possibilidade sufocante do mais ingênuo pensamento.
Eu não me cansei de suspirar pela vida, eu não posso dizer que já vi de tudo ainda. Sequer verei antes da catarata. E viverei sem sequer.
Mas não tendo algo suficiente que falar, expresso-me calando a voz. Aprecio apenas, sem pedir explicações ao Criador ou tentar colocar o “Céu na cabeça”*, porque tudo é sempre belo e inebriante e eu não mudaria nada na perfeição milimétrica do universo.
Há muito tempo eu não escrevo. Mas meu peito está cheio de ar, com a mesma forma abstrata de gás que eu não vejo, mas balança os meus cabelos. E sigo respirando a forma divertida de seus arabescos azuis, como os artistas de aquarelas costumam pintar, porque eles só querem colocar a cabeça no Céu e sorrir. E eu faço assim: Por que não?

* Referência a "Ortodoxia", de G.K. Chesterton <3
* Fiquei triste quando percebi que há mais de um ano eu não aparecia por aqui. 2014 me deixou sem espaço, mas fui eu quem permitiu isso. Em 2015, isso mudará. Não vou deixar mais acontecer.

Feliz Natal a todos!

O verbo


Eu descobri que sou um verbo. Sou porque sou e tornei-me na medida em que tentava ser. Agora, sendo, sou ainda mais. É simples assim: se você for sincero consigo mesmo, será. Fará sentido. Essa coisa de ser... não é tão difícil quanto parece. É gramatical.
Em algum momento do ensino fundamental as pessoas aprendem que verbo indica ação, estado ou fenômeno meteorológico. Ora, ser é verbo. Logo, o ato de ser deveria significar uma dessas três coisas. E arrisco dizer que, sendo algo tão fundamental, bem poderia significar as três. Então, por que insistimos em ser sem que sejamos? Por que não, agir e estar, da forma que se quer ser? Por que não, chover, nevar, orvalhar? Arco-íris de si. Frente fria de pensamentos. Um ciclone extratropical de conflitos internos. A paz, Coroa Lunar. Trovejar. El Niño. La Niña. El Niño, La Niña. El-niño-la-niña. Los Niños juntinhos. Quando dois são um só.
O que somos, nós que fazemos. E mais do que isso: O que somos, nós que somos. Se não se quer ser, já se está sendo. Para ser basta que se exista. Não é como uma opção. A opção é ser-o-que-se-é.  
Eu descobri que sou um verbo. E escolhi não apenas ser. Eu escolhi ser amor (que se é).
Eu escolhi ser: Amar.