Da melhor forma possível

É sempre sobre expectativas e decepções, sempre sobre como a vida não é o que a gente espera e sobre como não podemos confiar uns nos outros sem quebrar a cara no final. E acabamos esquecendo o outro lado da história, as voltas que o mundo 
dá, as coisas que já deram tão certo e o fato de que se nem tudo são flores, não quer dizer que tenha de ser espinhos.
Não é por conta de nenhum otimismo patológico que eu acredito que temos que aprender a enxergar as coisas da melhor forma possível. É, mais verdadeiramente, porque se nos atermos ao pior estaremos condenados a uma vida de sofrimentos sem significado. Sofrimentos que, diferentemente daqueles que vêm sem que movamos um dedo - só pelo fato de possuirmos a capacidade de sentir, poderiam ser evitados.
Os obstáculos estão aí, a nossa vantagem é que podemos escolher o que fazer com eles. 
E aí se, de uma vez por todas, conseguirmos entender que as coisas funcionam assim - que os outros não são perfeitos da forma que queremos, como também não o somos, que não se trata de não criar expectativas e sim de saber lidar com o que vier a nos decepcionar, que um erro só é fracasso quando desistimos de acertar - encontraremos uma razão para, ao invés de chorar, rir. E não riremos mais somente para não chorar.

Rosto no riso

O telefone toca em outro cômodo da casa. Minha inclinação em ir até lá não é maior do que seria se eu fosse convidada a tomar um banho no pântano. Mesmo assim, reúno coragem: sempre há esperanças. E eu não teria me perdoado se justo essa chamada caísse na caixa postal. O inconfundível e doce som de sua voz melodiosa desperta em mim o anseio por suas carícias, quase como se o seu "oi" ao telefone tomasse a forma de um abraço apertado que tão somente aguarda a supressão da distância em busca da sensibilidade do toque, da mesma forma que o "meu amor" que completa a frase - e sai "mômô" de tão dengoso - soa como um afago delirante de seus dedos macios nas maçãs rosadas do meu rosto inerte.
Faz-me aérea por alguns minutos, mesmo depois de ter desligado. Conservando o riso súbito de outrora, quando a junção das letras no visor revelaram o único nome que tem o poder de fazer minha paz interior transformar-se em um pandemônio entre palpitações e paradas cardíacas. Riso que acontece sem que eu me dê conta, simplesmente porque não há como pensar em você sem lembrar de ser feliz... sem achar o mundo inteiro bonito... sem carregar um brilho no olhar... um riso no rosto... talvez um rosto no riso. 

Não é carnaval

"Mas é carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixe a festa acabar,
Deixe o barco correr."

Mas não é carnaval!
Então diga-me quem é você!
Amanhã tudo pode mudar.
Não espere a festa acabar,
Nem deixe o barco correr.

(Longe de mim querer contradizer o nobre Chico mas, tudo muda quando não é carnaval.)