Do que é insondável

Levantou-se para escrever o que tanto lhe afligia a alma mas, ao sentar a ponta da caneta na folha em branco e inclinar corpo e mente na direção das palavras que viriam a seguir, descobriu-se inútil em desvendar o que já sentia de cor - no sentido mais literal da expressão. Na verdade, ela já havia conseguido lidar muito bem com o fato de não poder entender o amor e o universo e a síntese de proteínas mas tornar-se a si mesma um ponto de interrogação era muito mais do que podia suportar. Não compreender o que sentia parecia-lhe o mesmo que não saber quem era. A impressão que se tinha era de estar caindo no abismo de sua própria escuridão, da mesma maneira que Alice, tão imprevisivelmente, caíra numa toca de coelho. Mas havia um paradoxo misterioso naquela queda interminável: ao passo que penetrava mais profundamente, sentia-se cada vez mais longe do que queria se tornar, sob o peso esmagador dos medos e inseguranças, e também cada vez mais perto da liberdade que era fincar os pés no chão, porque apesar do tombo que a esperava e embora pudesse permanecer no mesmo lugar – e isso, em si, já é uma escolha -, poder-se-ia também ir para onde for, eventualmente com as próprias pernas. Tentava ela, principalmente sem sucesso, parecer indiferente a tudo isso, sem saber ao certo se a culpa era sua ou do mundo, sem saber a quem devia as respostas que andou procurando e de onde surgiram tantas cobranças sem razão aparente, mas sabendo que, fosse quem fosse, tratava-se de uma retaliação.
De qualquer forma, agradou-lhe lembrar que todas as vezes em que sonhou estar caindo, acordou na cama.


* Oi, gente! Nunca é tarde para desejar um feliz ano novo, não é?... então, FELIZ ano novo! Continuem comigo.

Debaixo do chuveiro

Originalmente escrito em 26 de julho de 2009

Debaixo do chuveiro, ela canta
No ritmo da música, os passos de dança
Um verdadeiro espetáculo:
Holofotes, aplausos e gritaria
Do lado de cá, os pais também gritam
Mas só que de agonia
A visita pensa sequer pensar
Em voltar aqui
E, debaixo do chuveiro,
A menina sorri
Até que o xampu escorrega
Fazendo arder o brilho no olhar
E a menina, depressa demais,
Os olhos se põe a lavar
Abundantemente, assim como o rótulo diz
O show acabou? Como assim?
Voltem amanhã! Deixem de euforia!
Pois essa menina tem, afinal
Para ser feliz, todo dia.

Areias da madrugada

Originalmente escrito em 17 de outubro de 2010


As ondas banhavam o meu corpo, no vai e vem improvável do raso do mar, siris dançantes brincavam ao meu redor. Meu cheiro de peixe fresco em redes de pescador impregnava o ar puro do dia.
A aurora já vinha surgindo e eu sabia que agora faltava pouco, ele logo estaria lá, brilhando de novo. Ainda que o mundo continue desmoronando.
Dessa vez, eu estava otimista, nunca havia tentado numa segunda-feira, afinal. Dessa vez, tinha que dar tempo. Esperei, ansiosa por um milagre.
Os fios de meu cabelo pingavam água salgada, as gotas que atingiam meu rosto fazendo o mesmo percurso das lágrimas. Chorar deve ser assim, pensei.
Dei uma olhada furtiva para trás, quando os murmúrios ao longe me fizeram estreitar os olhos. Já ficando perto.
Havia um segredo a ser guardado. Mergulhei de volta para casa.
Minha cauda verde-esmeralda emergiu segundos depois, deixando uma criança, que viera correndo na frente dos pais, de olhos arregalados e completamente boquiaberta, com os pézinhos fincados na areia macia.
Seu maior sonho, diria ela mais tarde.
Mas sereias não existem, retrucariam.