Significados

Costumamos achar que ser feliz é não sofrer, costumamos nos firmar em preconceitos que nos impede de ver além, costumamos achar que amar é tão fácil e doce quanto chupar uma bala e, quase na mesma proporção, costumamos inverter o conceito de bonito e feio. Quem é que não almeja ser cem por cento?, ora, humilhante mesmo é reconhecermos nossa pequenez. Melhor ignorar a regressão constante que é a humanidade, porque não só fazemos parte dela, exatamente. Melhor acreditar que somos capazes de tudo, que podemos fazer qualquer coisa, afinal, cada um é dono do seu próprio nariz, dita suas próprias regras, entende o que é melhor para si. "Bobagens antiquadas" não fazem, nem nunca fizeram, diferença num discurso. Acaba-se tornando mais uma polêmica sem conclusão. Melhor não cansar a tolerância e cruzar os braços apenas, enquanto vemos coisas todos os dias serem colocadas à pulso na normalidade. Melhor é ignorar que o vazio em que transformou-se o ser impregna todo o resto assim como uma fruta contaminada num cesto repleto de outras frutas. 
Eu sei, pobres de nós, que não podemos salvar o que quer que seja sozinhos e ainda assim depositamos toda a fé em nós mesmos. Pobres de nós, que não estamos dispostos  a acreditar na nossa única esperança. Pobres de nós, que jamais estivemos tão longe e ainda buscamos a felicidade tão assiduamente nos caminhos errados. Pobres de nós, que sofremos e esse sofrimento não vale a pena.

Construindo o depois

"O que esperam de mim?" Já me fiz esta pergunta muitas vezes, mas em nenhuma delas encontrei alguma resposta suficientemente boa, algo que não fosse uma mera desculpa para não dizer que não faço ideia. Aceitei críticas, mudei e recebi críticas de novo e foi isso que fez perceber que não importa o quanto eu mude: Nunca vão estar satisfeitos. E que o meu esforço deve continuar valendo, para mim, mesmo quando ninguém nota que me importo de verdade, nem apoia os meus planos e a construção do meu futuro a meu modo. Eu não queria seguir um padrão, como se nós tivéssemos nascido com manual de instruções e teclas coordenativas - tampouco revolucionar o mundo -, só gostaria de poder fazer algo útil da minha vida, que seja útil e que me realize. Que eu pudesse dizer "sim, quero isso!" como alguém diz "esse prêmio já tem o meu nome!" com toda aquela confiança em si mesmo e um sinal de exclamação no final. Só que eu simplesmente cansei de idealizar coisas que nunca acontecem, cansei de me revoltar em troca de nada, de procurar respeito de quem não sabe o que isso significa e, às vezes, penso seriamente em desistir, largar tudo para o alto, confesso que seria bem mais fácil... mas NÃO. Não é algo que se largue, um sonho.

Sobre riachos

Pele macia, bumbum de nenê. Pálida. A boca um tom de coral e longos cabelos vermelhos vivos sem fim. A menina corria em direção ao riacho nos fins de semana, era sagrado. E nadava até o pôr do sol, a correnteza brincando com o seu corpo e o vento alternando entre o frio e o calor. Gostava daquilo, de se sentir parte do mundo, mesmo que não fosse tanto assim. Para ela, paz significava natureza... e tudo, tudo tinha de ser o mais natural possível.
Até nos dias de tempestade quando seu riacho se revelava capaz de engolir todas as flores das margens continuava a ser seu ponto de refúgio. Porque uma coisa que é sua nunca deixa de ser, nem nos tempos de maior tormenta, nem nos de maior tensão, nem em qualquer outro tempo.
Mas num determinado dia ela precisou ir embora, essa coisa de ir embora acontece muito com as pessoas. E as águas do riacho secaram. A paisagem desmoronou com as tragédias de cada dia.

Só que ainda não foi o fim de história.
Sua mente ingênua a confundia, mas nunca a enganava. Ela sabia de certo que havia outros lugares no mundo onde poderia encontrar coisas boas.
Ainda há e nem todos secam.