Só viver

Sua realidade fez minhas maiores utopias parecerem possíveis e todo o meu mundo, uma brincadeira de faz-de-conta. Me fez abandonar minhas convicções - o que eu achava ter desvendado das coisas como elas são, da vida como ela é - e admitir o quanto havia sido tola.
Sua realidade se apresentou a mim como um convite para deixar de ser botão e florescer na próxima primavera. E eu, mais que aceitá-lo, quis merecê-lo. Até que ele veio oficialmente, em forma de cartão, num buquê das minhas lindas rosas, como uma proposital ironia.
Estava já disposta a deixar tudo para trás. As malas prontas e postas na sacadas guardavam roupas, memórias e outros pertences acumulados ao longo do tempo. E eu estava pronta para ti, tanto quanto foi possível restaurar-me. Pronta para sair dos entulhos da ruína de minha antiga esperança e enfrentar o que viesse, com a mais bem ensaiada pose de durona. E a segurança de nossos dedos entrelaçados. As malas postas na sacada e eu reposta no meu lugar.
Sua realidade, quando passou a ser nossa, tornou-se meu maior sonho realizado.
Nossos desejos particulares cederam espaço à planta de uma casa, a contas-poupança, a anões de jardim  e carrinhos de nenês. E fomos construindo amor ao longo do caminho.
Assim descobri que melhor do que sonhar... só viver.

Sem você. Com saudade.


Sentir saudade de você é difícil. Não necessariamente por causa da própria saudade mas, de tudo o que vem junto com ela. Assim, sinto-me uma perfeita panela, não sem tampa, mas sem cabo. Como se, o tempo todo, alguma parte essencial de mim estivesse faltando. E o tal tempo, no todo que o pertence, transcorre lentamente, de um jeito aborrecido, como se nem ele suportasse seu próprio ritmo. Em suma, parece não avançar. E a vida vai acontecendo como uma longa espera na rodovia, quase alheia de mim, quando você não está. E sinto que todas as coisas, por mais divertidas que venham a ser, poderiam ter uma dose a mais de graça. Inclusive eu mesma. Sinto-me também um tanto quanto insensível, diferentemente do que normalmente sou, como se nada mais conseguisse ser intenso a ponto de me afetar. Não depois de você. Não mais que o seu carinho. Sinto, ainda, um frio na barriga toda vez que o som da campainha tocando desperta a esperança de te ver outra vez. E minha vontade de te ver não passa. E minha saudade, a vista embaça. Pra que eu só tenha olhos pra você. Para garantir que o resto seja só isso: Resto.
E isso sem falar do aperto no peito.


(Tomei vergonha na cara e criei um marcador para o Nas Margens de Mim)

Se...

Se você soubesse como anda o meu coração, se houvesse, ao menos, alguma forma de expressar, se fosse mais lógico ou exato como a matemática eu tentaria - mesmo tento que deixar os meio-termos de lado, ainda que nem eu saiba ao certo - te fazer entender. Se você sentisse o que eu sinto, visse a mim como eu te vejo, almejasse o mesmo fim com todos os "para sempre" que dão imortalidade às histórias,nós poderíamos viver nossa própria versão dos contos de fadas (sem príncipe, nem princesa, só o amor que os faz enfrentar os dragões). Se eu te falasse somente belas palavras, tivesse tempo para pensar em algo mais além de respostas tolas a seus questionamentos súbitos e, então, minha voz não saísse aos tropeços, talvez eu fizesse mais sentido para você. Se eu permanecesse intacta ao te ver, estivesse acostumada a nós tão perto de forma concreta e recordasse os planos de ação A, B, C, D para encontros eventuais que fiz sem perceber enquanto a imaginação se encarregava de criar cenários improváveis de cenas que nunca aconteceriam, talvez você gostasse do que normalmente sou. Se você soubesse como anda o meu coração, saberia que se você sorrisse para mim no pior dia do ano, eu retribuiria. Saberia que eu gostaria que dependesse só de mim o fato de ainda sermos um caso hipotético, um "se" entre tantos outros.

(Escrito para o Nas Margens de Mim)